Como saber se o cartório pode contratar mais um funcionário
Da necessidade da equipe ao custo completo da vaga: um exemplo para avaliar a contratação também nos meses de menor movimento.
Responsável editorialBruno Krohnfundador da Acta Control, professor na ENNOR e certificação CEA-ANBIMA

Imagine esta situação: num tabelionato de notas, a equipe se divide entre o balcão e a preparação dos atendimentos. Quando o movimento aumenta, os documentos se acumulam. O titular considera contratar um auxiliar com salário de R$ 3 mil. Pelo resultado do último mês, parece possível.
Mas o salário é só uma parte da conta. Antes de abrir a vaga, vale entender qual trabalho precisa de reforço e quanto a serventia terá de sustentar ao longo do ano.
Vamos percorrer essa decisão com um exemplo. Os valores são ilustrativos, não representam pisos salariais nem custos médios de cartórios. O objetivo é mostrar o que conferir na sua realidade: a contratação alivia o ponto certo da operação? E continua cabendo quando o mês é menos favorável?
Qual tarefa precisa de mais alguém?
“A equipe está sobrecarregada” é um sinal importante, mas ainda não define uma vaga. No nosso exemplo, o trabalho está parado porque falta alguém para receber e organizar os documentos ou porque a mesma informação precisa ser conferida em dois lugares?
Peça ao responsável pela equipe que observe alguns dias representativos da rotina, incluindo os horários de maior movimento. Procure localizar:
- Onde o trabalho se acumula: no atendimento, na organização dos documentos ou numa etapa posterior?
- O que provoca as interrupções: dúvidas recorrentes, documentos incompletos, falhas no sistema ou volume que a equipe não consegue absorver?
- Que atividades ficam sem cobertura: quando alguém sai de férias, falta ou precisa se dedicar a outra tarefa?
Essa conversa ajuda a distinguir o que uma contratação pode resolver do que também exige ajuste de processo. Se o problema é capacidade insuficiente, reorganizar tarefas pode não bastar. Se é retrabalho, uma pessoa nova precisará de um fluxo melhor para conseguir ajudar.
No tabelionato do exemplo, suponha que o diagnóstico confirme a necessidade de apoio ao recebimento e à organização dos documentos, dentro das atribuições do auxiliar. Agora existe uma finalidade clara para a vaga.
Quantidade de atos, sozinha, não mede a carga de trabalho de cada pessoa. A complexidade dos atendimentos, as responsabilidades e as tarefas de apoio também precisam entrar nessa leitura.
Quanto essa vaga custa além do salário?
A gestão de pessoal é responsabilidade do titular, como estabelece o art. 21 da Lei 8.935/1994. Para decidir com uma conta completa, peça ao contador ou ao departamento pessoal um orçamento que considere a função, a jornada e a convenção coletiva aplicável.
Esse orçamento deve separar o custo que se repete dos gastos para colocar a pessoa em condições de trabalhar.
No recorrente, entram a remuneração, os encargos patronais, o 13º, as férias e seu adicional, além dos benefícios aplicáveis. Fora da folha, confira se será necessário pagar uma licença adicional do sistema de balcão. Equipamento, preparação do posto e integração entram em outra linha. O tempo de quem vai ensinar também precisa ser reservado, mesmo quando não gera um pagamento extra.
Para enxergar o compromisso, vamos usar um orçamento anual de referência, com salário fixo e direito integral ao 13º e às férias. Não é uma simulação de admissão em outubro nem um calendário dos primeiros doze meses de um novo contrato.
- Doze remunerações de R$ 3.000: R$ 36.000, já incluindo a remuneração do mês de férias.
- 13º e adicional de um terço de férias: R$ 4.000, sendo R$ 3.000 e R$ 1.000, respectivamente.
- Encargos patronais e benefícios: R$ 15.800 no orçamento ilustrativo.
- Licença adicional do sistema de balcão: R$ 1.800 no ano.
O total é R$ 57.600 por ano, equivalente a R$ 4.800 por mês para planejamento. Encargos e benefícios são premissas deste exemplo; no seu orçamento, precisam vir do cálculo específico da serventia. Não há um multiplicador de salário que substitua essa conferência.

Observe que a remuneração das férias já está nas doze remunerações. Somá-la inteira outra vez duplicaria essa parcela; o adicional de um terço está destacado. A cobertura da ausência é uma questão diferente: aqui, supomos que a equipe consiga se organizar sem custo extra. Se houver necessidade de substituição ou horas extras, a conta deve aumentar.
Neste exemplo, equipamento e preparação inicial acrescentam R$ 2.400, levando o conjunto a R$ 60.000. Não consideramos reajustes, horas extras ou rescisão. São itens a avaliar conforme a situação real.
Cabe no mês habitual. E no mês mais fraco?
Agora precisamos comparar o novo compromisso com o espaço que existe no orçamento. Esse espaço não é o saldo da conta bancária. É o que resta depois de prever despesas atuais, tributos, reservas e as retiradas que o titular pretende manter.
Suponha que essa conta deixe R$ 10 mil num mês habitual. Ao reservar os R$ 4.800 equivalentes da nova vaga, ainda restam R$ 5.200.
Num mês mais fraco, porém, o mesmo levantamento deixa apenas R$ 4.500. A contratação continua exigindo os mesmos R$ 4.800 de planejamento: faltam R$ 300 para manter todas as escolhas do orçamento.

Isso não significa que um único mês fraco inviabilize a vaga. Significa que a diferença precisa ter cobertura planejada. Pode ser necessário rever uma retirada, ajustar outra despesa ou usar uma reserva disponível para essa finalidade. Se a insuficiência se repetir, a solução também precisa durar, sem depender de consumir a reserva indefinidamente.
Também será preciso acomodar os R$ 2.400 iniciais. Eles não estão dentro dos R$ 4.800 mensais. E dividir o custo anual por doze ajuda a planejar, mas não faz os pagamentos vencerem em parcelas iguais. Confira quando salários, encargos, benefícios e obrigações anuais serão pagos. O roteiro de fluxo de caixa para cartórios ajuda a organizar essa segunda conferência, agora por data.
O teste mantém a receita sem um ganho atribuído à contratação. Também não antecipa uma eventual redução de imposto como economia garantida. O efeito tributário precisa ser apurado no caso concreto. Assim, a decisão não depende de benefícios que ainda não foram demonstrados.
Na Acta Control, o histórico de despesas ajuda a situar o peso da folha. O Simulador permite testar mudanças em folha, demais despesas e receita. O orçamento da vaga vem antes: a simulação gerencial não substitui o cálculo trabalhista nem determina quantas pessoas o cartório deve ter.
O que precisa melhorar depois da contratação?
Voltemos ao auxiliar do exemplo. Se a finalidade é dar apoio ao recebimento e à organização dos documentos, acompanhe se diminuiu o acúmulo nessa etapa e se a equipe passou a conseguir concluir a rotina com menos interrupções.
Defina quem vai orientar a pessoa, quais tarefas ela poderá assumir e quando vocês vão rever a adaptação. Não espere a capacidade plena desde o primeiro dia: quem ensina também precisa de tempo para isso.

Acompanhe também o custo realizado. Uma licença que não entrou no orçamento ou uma cobertura de férias que se mostrou necessária muda a conta. Isso deve aparecer na revisão, junto com o que melhorou no atendimento.
Preservar a qualidade e reduzir a sobrecarga também são resultados importantes. A contratação não precisa ser justificada por uma promessa de receita individual. Precisa ter finalidade, recursos e condições para funcionar.
Antes de abrir a vaga, reúna estas respostas
Qual tarefa precisa de reforço? Qual é o custo completo, incluindo a implantação? Como ele será coberto nos meses menos favoráveis? Quem vai acompanhar a adaptação?
Com essas respostas, a conversa deixa de depender apenas da sensação de aperto ou do resultado de um mês bom. Você passa a discutir uma contratação concreta, com função definida e compromisso financeiro conhecido.
Para fazer essa análise virar rotina, o histórico da serventia precisa estar organizado. A Acta Control reúne a leitura das despesas e a simulação de mudanças na folha para apoiar essa decisão. Comece pelo orçamento da vaga e compare com os meses que o seu cartório já viveu. É essa combinação que permite avaliar o próximo passo com mais segurança.
Referências para as parcelas trabalhistas citadas: Lei 4.090/1962, art. 1º, sobre o 13º e Constituição Federal, art. 7º, XVII e XXVI, sobre férias e negociação coletiva.